Decidi escrever sobre o meu trabalho na Amazônia...
Tudo começou quando eu terminei minha faculdade de jornalismo, depois de quatro anos de frustração. Decidi que era hora de tentar outra experiência, além de trabalhar numa redação de jornal, assessoria de imprensa ou afins. Escolhi a Amazônia, região de riqueza e diversidade cultural e natural. Antes mesmo da minha formatura, inscrevi-me em uma capacitação para atuar nas denominadas Frentes de Proteção Etnoambietais, da Coordenação Geral de Índios Isolados
(FUNAI), em um convêncio com
Centro de Trabalho Indisgenist (CTI). Até então, eu não tinha a noção exata de quem eram esses índios e muito menos de como e onde eles viviam.
“São considerados “isolados” aqueles grupos indígenas que não estabeleceram contato permanente com a população nacional, diferenciando-se das sociedades indígenas já contatadas. Ações de localização e proteção para esses índios são realizadas por iniciativas da própria Fundação Nacional do índio FUNAI”.
As Frentes atuam em regiões onde existam referências de índios isolados, desenvolvendo atividades de pesquisa de campo para conhecimento das áreas de mobilização indígena, levantamento etno-histórico, bem como ações de proteç

ão, vigilância e fiscalização da terra indígena. Fui selecionada dentre algumas pessoas, após participar da capacitação para auxiliares de Coordenação de Frente de Proteção.
A capacitação foi dividida em dois momentos: a primeira seleção em Brasília, com um curso teórico e a segunda em Rondônia, com expedição para aprender o básico de sobrevivência na selva e técnicas de localização, usos de mapa e GPS, e técnica de identificação de vestígios etno-históricos. Após ser selecionada, fui encaminhada à Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, que fica próxima à tríplice fronteira Brasil/Peru/Colômbia.
“O trabalho das Frentes é desenvolvido em regiões inóspitas e desconhecidas, o que exige das equipes a organização de expedições fluviais e terrestres, com longos percursos a pé, previamente planejadas com auxílio de mapas e dados coletados em sobrevôos. A constatação do avanço das fronteiras econômicas nas regiões onde existem os índios isolados obriga as Equipes a acelerar os levantamentos sobre localização desses índios, na tentativa de alcançar e proteger os índios e seu habitat antes do impacto causado com a chegada de segmentos despreparados para o contato (madeireiros, garimpeiros, grileiros, caçadores, pescadores, etc.). A interferência no território imemorial indígena força os grupos a estabelecerem, em algumas situações, um “nomadismo” como mecanismo de sobrevivência. Nesta circunstância a dificuldade da Equipe de localização aumenta, uma vez que os indígenas desenvolvem uma estratégia de camuflar sua presença na região. O desenvolvimento das atividades de localização, nesta fase, pode ser entendido pelos índios como uma “perseguição”, colocando as equipes em risco”.
Trabalhava na mata, participando e organizando as expedições de localização e de fiscalização; entrevistava os moradores das cidades vizinhas, madeireiros, pescadores e ex-caucheiros, que tiveram contato (amis

toso ou não) com esses índios; pesquisava sobre os grupos indígenas próximos, para tentar desco
brir alguma similaridade; escrevia relatórios e criava pequenos projetos; capacitava representantes de etnias contatadas (
Matis, Marubo, Mayoruna, Kulina e Kanamari), que vivem em territórios vizinhos ao dos índios isolados, á respeito da proteção do meio ambiente e da cultura material e imaterial; fazia sobrevôos de localização de malocas. Nos momentos de emergência, atuei com auxiliar de enfermagem, por falta de profissionais de saúde. Investigava para descobrir quem são os isolados, de que família lingüística esse índios são integrantes, qual é o seu passado e como será seu futuro. Além disso, havia o trabalho com o grupo de récem-contato
Korubo (veja meu texto sobre o grupo no site do ISA).
Na foto: Eu e Monan Korubo,
integrante do grupo récem-contatado Korubo.
“As Frentes de Proteção estabelecem contato com grupos de índios isolados apenas quando é extremamente necessário, quando estes índios encontram-se sob extrema ameaça a sua integridade física e cultural”. Foi o caso do contato do grupo Korubo, em 1996, os Awá-Guajá, em 1998, e um breve contato com os Piripikura (contudo, o grupo continua isolado). Ou seja, a constatação da existência de índios isolados não determina, necessariamente, a obrigatoriedade de contatá-los.
Para resumir, o trabalho seguia as seguintes premissas: garantir aos índios isolados o pleno exercício de sua liberdade e das suas atividades tradicionais; promover ações sistemáticas de campo destinadas a localizar geograficamente e obter informações sobre índios isolados; garantir, assegurar e proteger as terras habitadas por índios isolados, em seus limites físicos, riquezas naturais, na fauna, flora e mananciais; a saúde dos índios isolados, considerada prioritária, será objeto de especial atenção, decorrente de sua especificidade; a cultura dos índios isolados nas suas diversas formas de manifestação será protegida e preservada; proibir no interior da área habitada por índios isolados, toda e qualquer atividade econômica e comercial.
Quase três anos de trabalho duro, que exigiu muitíssimo esforço mental e físico. Malária, infecções, armas, apreensões de toneladas de carne silvestre, de pescaria ilegal e madeira, assim como tiros e ameaças, eram parte da rotina. Mas deixa que essas são outras histórias...