domingo, 28 de junho de 2009

O que eu fazia na Amazônia? O que são índios isolados?

Decidi escrever sobre o meu trabalho na Amazônia...


Tudo começou quando eu terminei minha faculdade de jornalismo, depois de quatro anos de frustração. Decidi que era hora de tentar outra experiência, além de trabalhar numa redação de jornal, assessoria de imprensa ou afins. Escolhi a Amazônia, região de riqueza e diversidade cultural e natural. Antes mesmo da minha formatura, inscrevi-me em uma capacitação para atuar nas denominadas Frentes de Proteção Etnoambietais, da Coordenação Geral de Índios Isolados (FUNAI), em um convêncio com Centro de Trabalho Indisgenist (CTI). Até então, eu não tinha a noção exata de quem eram esses índios e muito menos de como e onde eles viviam.

“São considerados “isolados” aqueles grupos indígenas que não estabeleceram contato permanente com a população nacional, diferenciando-se das sociedades indígenas já contatadas. Ações de localização e proteção para esses índios são realizadas por iniciativas da própria Fundação Nacional do índio FUNAI”.


As Frentes atuam em regiões onde existam referências de índios isolados, desenvolvendo atividades de pesquisa de campo para conhecimento das áreas de mobilização indígena, levantamento etno-histórico, bem como ações de proteção, vigilância e fiscalização da terra indígena. Fui selecionada dentre algumas pessoas, após participar da capacitação para auxiliares de Coordenação de Frente de Proteção.

A capacitação foi dividida em dois momentos: a primeira seleção em Brasília, com um curso teórico e a segunda em Rondônia, com expedição para aprender o básico de sobrevivência na selva e técnicas de localização, usos de mapa e GPS, e técnica de identificação de vestígios etno-históricos. Após ser selecionada, fui encaminhada à Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, que fica próxima à tríplice fronteira Brasil/Peru/Colômbia.

“O trabalho das Frentes é desenvolvido em regiões inóspitas e desconhecidas, o que exige das equipes a organização de expedições fluviais e terrestres, com longos percursos a pé, previamente planejadas com auxílio de mapas e dados coletados em sobrevôos. A constatação do avanço das fronteiras econômicas nas regiões onde existem os índios isolados obriga as Equipes a acelerar os levantamentos sobre localização desses índios, na tentativa de alcançar e proteger os índios e seu habitat antes do impacto causado com a chegada de segmentos despreparados para o contato (madeireiros, garimpeiros, grileiros, caçadores, pescadores, etc.). A interferência no território imemorial indígena força os grupos a estabelecerem, em algumas situações, um “nomadismo” como mecanismo de sobrevivência. Nesta circunstância a dificuldade da Equipe de localização aumenta, uma vez que os indígenas desenvolvem uma estratégia de camuflar sua presença na região. O desenvolvimento das atividades de localização, nesta fase, pode ser entendido pelos índios como uma “perseguição”, colocando as equipes em risco”.

Trabalhava na mata, participando e organizando as expedições de localização e de fiscalização; entrevistava os moradores das cidades vizinhas, madeireiros, pescadores e ex-caucheiros, que tiveram contato (amistoso ou não) com esses índios; pesquisava sobre os grupos indígenas próximos, para tentar descobrir alguma similaridade; escrevia relatórios e criava pequenos projetos; capacitava representantes de etnias contatadas (Matis, Marubo, Mayoruna, Kulina e Kanamari), que vivem em territórios vizinhos ao dos índios isolados, á respeito da proteção do meio ambiente e da cultura material e imaterial; fazia sobrevôos de localização de malocas. Nos momentos de emergência, atuei com auxiliar de enfermagem, por falta de profissionais de saúde. Investigava para descobrir quem são os isolados, de que família lingüística esse índios são integrantes, qual é o seu passado e como será seu futuro. Além disso, havia o trabalho com o grupo de récem-contato Korubo (veja meu texto sobre o grupo no site do ISA).

Na foto: Eu e Monan Korubo,
integrante do grupo récem-contatado Korubo.
“As Frentes de Proteção estabelecem contato com grupos de índios isolados apenas quando é extremamente necessário, quando estes índios encontram-se sob extrema ameaça a sua integridade física e cultural”. Foi o caso do contato do grupo Korubo, em 1996, os Awá-Guajá, em 1998, e um breve contato com os Piripikura (contudo, o grupo continua isolado). Ou seja, a constatação da existência de índios isolados não determina, necessariamente, a obrigatoriedade de contatá-los.

Para resumir, o trabalho seguia as seguintes premissas: garantir aos índios isolados o pleno exercício de sua liberdade e das suas atividades tradicionais; promover ações sistemáticas de campo destinadas a localizar geograficamente e obter informações sobre índios isolados; garantir, assegurar e proteger as terras habitadas por índios isolados, em seus limites físicos, riquezas naturais, na fauna, flora e mananciais; a saúde dos índios isolados, considerada prioritária, será objeto de especial atenção, decorrente de sua especificidade; a cultura dos índios isolados nas suas diversas formas de manifestação será protegida e preservada; proibir no interior da área habitada por índios isolados, toda e qualquer atividade econômica e comercial.

Quase três anos de trabalho duro, que exigiu muitíssimo esforço mental e físico. Malária, infecções, armas, apreensões de toneladas de carne silvestre, de pescaria ilegal e madeira, assim como tiros e ameaças, eram parte da rotina. Mas deixa que essas são outras histórias...

sábado, 27 de junho de 2009

Voluntariado na África e Índia - eu vou, e você?

Você já pensou em ajudar ou conhecer a África ou Índia? Eu penso todos os dias. Imagine poder conhecer e ajudar a preservar as inúmeras culturas e línguas que lá existem. Imagine, ainda, ter o prazer de ajudar ao próximo, sem medir forças para isso. Pois bem, é isso que farei nos próximos meses. Decidi ser voluntária e, no momento, estou me capacitando no College for International Co-operation and Development (CICD)- veja mais informações abaixo- no Reino Unido. Por aqui, encontrei pessoas de vários países com o mesmo objetivo: tentar fazer a diferença e ajudar nas regiões mais desamparadas do mundo.
Foto: Ananda Conde

Depois de quase três anos na Amazônia, atuando na proteção de índios isolados(sim, eles existem) e seu território - toda aquela riqueza natural que está em via de destruição - decidi seguir para África para fazer a comparação das duas realidades. Para muito brasileiros que desconhecem o norte do país, existe, além dos problemas ambientes, talvez a maior concentração de problemas sociais e de saúde do Brasil. O índice de Hepatite e HIV é assustador. Pra se ter idéia, por lá existe a tal de Hepatite Delta, muito potente e que não tinha ouvido falar. Além disse, as grandes empresas de petróleo e minério fazem pressão para explorarem (e destruírem) a região. Em junho deste ano, cerca a de 30 indígenas foram assassinados por conta da luta pela preservação de seu território e contra a entrada de exploradoras de petróleo (nem preciso dizer quem contratou os assassinos). E quanto a madeira? Seria demais citar o processo de contrabando e exploração de madeira na região (seria necessário um laudo de um milhão de páginas). Enfim, depois de avaliar os problemas desconhecidos, decidi seguir para África e Índia, e fazer a tal comparação, já que esses problemas e muitos outros existem há séculos, devido ao mesmo tipo de exploração que aconteceu (e acontece) na Amazônia. Fatores históricos e econômicos bem similares. Finalizo com as informações do programa, caso alguém se interesse:



Os Projetos

O CICD trabalha junto com projetos no Malawi, Moçambique, Congo, Namíbia, África do Sul, Angola e Índia. Você pode trabalhar em:
Escolas de Professores do Futuro – dedicadas na educação de professores para áreas rurais.
Escolas Vocacionais para jovens.
Escolas para Meninos de Rua.
Pré-escolas.
Higiene e tratamento sanitário em áreas rurais.
Plantação de árvores.
Angariação de fundos para projetos sociais, formando parcerias e vendendo roupas e calçados usados.
Parar a propagação do HIV / SIDA nos programas HOPE ou TCE (Controle Total da epidemia)

O Programa:
6 meses de treino no CICD
6 meses de trabalho voluntário num dos projetos na Africa ou India
2 meses de avaliação e trabalho de informação – “Camp Future”
Os 6 meses do programa de treino são baseados numa educação incomum e emocionante, desenhada de modo a preparar os estudantes para os desafios do seu período no projeto. Cursos e estudos das língua nativas (além do inglês) são combinados com aprendizagem prática e atividades para criação e entrosamento do grupo. Você aprenderá a ser a força motriz por detrás do seu próprio treino – assim como terá de o ser enquanto trabalhando em solidariedade com os seus parceiros no seu período de projeto na África ou Índia.
Durante os primeiros 2 meses de treino, o seu grupo receberá as descrições do trabalho a realizar, e a escola decidirá onde você irá trabalhar.
Findo o período de treino, inicia-se o projeto de voluntariado. Afinal, é essa a razão principal. Apesar de todo o seu treino, você encarará com grandes desafios à sua frente.
Os 2 meses de “Camp Future” é um período onde você avaliará e digerirá o que fez, e as mudanças que aconteceram consigo. Preparar-se para continuar com a sua vida futura.
Há participantes de 25-30 países diferentes o transforma o CICD num espaço extremamente excitante para viver.
Durante o período no projeto receberá alimentação, acomodação e dinheiro para despesas correntes. Foto: Ananda Conde


Se considerar em fazer este programa, a primeira coisa a fazer é enviar a sua ficha de inscrição devidamente preenchida ( pode enviar para mim). Depois de recebermos a sua ficha, entraremos em contato para responder a quaisquer perguntas.


Pode me contatar para eventuais perguntas ou se engajar
Contate-me para discutirmos as diferentes maneiras de obter uma bolsa de estudos.

Para inaugurar

Pois bem, meu português já está atrofiado e meu inglês ainda não existe. Mas, de qualquer forma, vou tentar explicar o motivo de escrever minhas memórias, seja em qualquer idioma

Primeiro, porque são MINHAS, ou seja, já é um bom começo.
Segundo, preciso de algo para posteridade.
Terceiro, para ajudar a quem precisa ser ajudado, com alguma informação interessante sobre a minha trajetória na luta pelos direitos humanos.
Quarto, para ser ajudada (porque não)

Talvez alguém queira saber como se engajar e tentar ajudar a mudar a desigualdade e as injustiças do mundo. Ou, quizás, alguém queira saber das minhas viagens acidentais(ou não), pelo mundo. Vida de indigenista mulher, de jornalista frustrada, de voluntária, de eterna estudante, de futura cientista, de comilona, de Brasil, de Europa, África, Índia e o que vier.

Conhecer até cansar (algo que acho impossível, já que conhecer nunca é demais). Não pretendo escrever “bonito”, nem procurar palavras no dicionário para deixar o texto mais erudito (se é que posso usar esse termo). Só quero contar um pouco da minha história e divulgar o que eu acho legal. Ou seja, compartilhar

Programa de índio? Sim, porque eu adoro....

Clique na imagem para acessar meu texto sobre índios isolados no Instituto Socioambiental (ISA)