Todos os dias no assentamento são iguais, na solidão da imensidão que corta o sul do Pará. A distância dos meus filhos, os sonhos de conseguir um cadinho de terra, a falta de trabalho, a fome, tudo isso me afastou da minha casa lá na cidade de Xinguara. Levamos horas na boleia de caminhão até o lugar que será nosso futuro, nossa esperança de vida.
Por aqui, acordo bem cedo todos os dias e já me levanto para fazer o café, cujo aroma serve como despertador do marido, que logo sai para labuta diária. Ele trabalha o dia todo na fazenda ao lado, para conseguir o lote e a nossa comida. Dinheiro não há, mas o que se produz a mais, logo se troca por outras coisas. O que produzimos não é muito. Por isso, tive que deixar meus filhos ficaram com a minha irmã, lá em Xinguara, e eu sinto falta, muita falta dos meus meninos.
Em casa, os meus dias se passam na organização do barraco, meu tapiri, o meu abrigo, que não é nada grande. Passo o dia preparando a comida, limpando a poeira, cuidando das minhas galinhas mirradas. Eu e meu marido nos mudamos há quase um ano para conseguirmos a nossa terra e, enfim, o sustento para uma vida melhor para nossos meninos.
Nesse lugar não há muito o que se fazer e não passa muita gente, somente nós e os outros, os que já estavam aqui antes da gente, na Vila São Francisco. Eles não gostam muito da nossa presença, mas tentamos conviver na máxima harmonia. Não queremos encrenca, só nosso lote.
Hoje, a mesmice mudou de cara. Pensei que tudo seria como se fosse o ontem, mas o diferente surgiu e despontou na porta da minha casa. Eram pessoas diferentes, saídas de um ônibus, num rompante de farda amarela, gritando aos cantos um tal de “Projeto Rondon”, caminhando pelas duas rua de chão batido, convidando todos para seguirem à escolinha que fica bem em frente à minha casinha. Escutei, espiei pela janela e fiquei curiosa, mas segui fazendo meu feijão. Pouco depois, dois meninos bateram palmas na porta. Um menino novinho e uma menina de cabelos cacheados e volumosos. “Podemos falar com senhora”, perguntaram os dois meninos de camisa amarela, num tom amigável. Fiquei toda envergonhada de notarem minha humilde casa, já que eles pareciam ser gente importante, mas deixei eles entrarem. Explicaram-me que estavam estudando Medicina e participavam de um projeto do Ministério, conversando sobre saúde em alguns lugares da região. Eu perguntei se eles eram de Xinguara e logo me responderam que o grupo do qual faziam parte tinha gente de Brasília, Goiânia e do sul do Brasil. “Eu sou de Brasília, meu nome é Ananda, e ele é de Goiânia e se chama Lucas”, respondeu a menina sorrindo.
Sentaram nos banquinhos de toco de madeira que eu ajeitei com um pano e começaram a conversar. Queriam saber quando eu fiz a consulta no médico pela última vez, coisa que eu nem me lembrava mais. Perguntavam e escutavam com atenção, bem diferentes das pessoas que viviam aqui, na região que montamos o assentamento. Aqui no postinho ninguém me trata bem e a técnica de enfermagem repete insistentemente que eu sou de fora e tenho que marcar consulta lá em Xinguara, onde eu sou cadastrada. Já deixei de mão essa história de me consultar. Não tenho condição de me mover quase 200 quilômetros para ir ao médico.
Os meninos fizeram um tanto de pergunta sobre a minha vida e eu já estava com medo de ser alguém querendo me expulsar daqui. Nessa situação parece que todo mundo quer me fazer mal, não consigo confiar nesse povo que vem de fora, igual político em época de eleição. Mas, depois de alguns minutos percebi que eles não pareciam ameaçadores. A menina elogiou o cheiro da minha comida e perguntou o que eu estava cozinhando e os chamei para comer minha galinha caipira, mas eles disseram que tinham que passar em outras casas.
Continuaram a perguntar sobre coisas da minha vida e eu já fui logo dizendo que tudo que eu mais queria era a possibilidade de poder trabalhar e estar com meus filhos, mas eu precisava de conseguir meu lote para seguir com uma condição melhor. Eles me explicaram que precisavam saber de algumas coisas sobre a minha vida, para avaliar minha saúde, que era o que eles pretendiam com a visita. Eu fiquei mais calma e conversei mais leve. Eles continuaram com as perguntas e queriam saber se eu me sentia bem e eu disse que tudo estava normal, mas que eu sentia um cansaço de vez em quando, principalmente se eu fazia um esforcinho, como uma caminhada mais longa pela roça. Perguntaram se eu tinha uma tal de hipertensão e eu nem sabia o que era isso, mas a menina me explicou que era a tal da pressão alta. Eu me lembrava que há alguns anos o médico lá de Xinguara tinha me passado uns remédios, mas eles tinham acabado desde que eu cheguei aqui. Eu já tinha tentando conseguir uma nova caixinha de remédio no postinho, mas a técnica do posto disse que eu não podia pegar o remédio de lá, porque eram só para as pessoas cadastradas, ou seja, os moradores da Vila São Francisco, e que o povo do assentamento não fazia parte de lá. “Se quiser pegar o remédio, vai para onde você tem cadastro, porque os remédios daqui são para os moradores daqui, não posso fazer nada”. O postinho fica bem ao lado do meu barraquinho, posso ver da minha porta, mas eu não tinha o cadastro que a técnica tanto falava. Deixei de lado, porque eu não queria incomodar esse povo e estava cansada de ser maltratada. A menina de Brasília ficou chateada e disse que isso era errado e que eu tinha direito a receber o remédio. “Saúde é um direito de todos, isso não é justo”, dizia a menina, com um tom de chateação. Fiquei com muito medo de criar caso com o povo do postinho e pedi para eles dois não falarem nada com a técnica. Eles disseram que tentariam resolver o problema, mas não falariam nada do que tínhamos conversado. “Pode ficar tranquila dona Maria, pois não vamos falar nada do que a senhora nos disse”, disse o menino.
Os dois me explicara que eu tinha que tomar o remédio para a pressão, para evitar problemas de saúde bem sérios, que podiam me derrubar. Abriram a mochila e tiraram um aparelhinho de pressão e “mediram” a minha. “Nossa”, disse a menina toda assustada, olhando para minha cara com ar de preocupação. “Tá muito alta dona Maria, 17 por 9”, respondeu a menina. “Temos que ir no posto agora mesmo, tentar pegar esse remédio”, prosseguiu com a voz pesada. “A senhora não pode ficar sem remédio, porque faz muito mal para o seu coração”, explicou o menino. Eu disse a eles que não podia sair de casa e deixar a panela no fogo. Na verdade, isso era como uma desculpa, já que eu não queria ser maltrata mais uma vez, porque eu sabia que não ia dar em nada se eu tentasse ir no postinho. Eles insistiram e me disseram que iam me acompanhar para falar com a técnica , sem muita demora. “Nós não somos médicos ainda, mas queremos ajudar”, disse Lucas, o menino de Goiânia com sotaque arrastado. Eu aceitei.
Perguntaram se eu tinha uma caixa
do remédio que eu tomava e eu disse que tinha uma receita velha, lá debaixo da cama, junto com meus documentos. Eles disseram que servia. Peguei o papel, entreguei nas mãos da menina, desliguei o fogo, deixei a casa e segui caminhando, ao lado deles, com receio de criar alguma briga. Chegando lá, a menina perguntou à técnica de enfermagem se podia ver os remédios que tinham na farmácia. A técnica hesitou, mas levantou da cadeira que estava sentada, olhou para minha cara e disse que levaria a menina atém lá. Abriu umas das portas do pequeno corredor do posto e a menina de Brasília entrou. Depois de um tempo, saiu com o remédio nas mãos.
A menina relatou que conversou com a técnica e, depois de uma discussão, conseguiu pegar uma caixa do remédio. Os dois forasteiros explicaram para a técnica que todos tinham que ter acesso aos serviços do posto de saúde e que era necessário fazer um novo cadastro para as pessoas do assentamento. A técnica olhava com olhos de raiva e disse que ia acatar. Os jovens se, viraram e disseram que me acompanharia até a porta da minha casa. Fiquei tão emocionada, que chorei ao chegar no meu barraquinho. Disse aos dois que eles eram os anjos que surgiram nessa terra abandonada por todos. Eles me abraçaram. Falaram que iriam conversar com o povo de saúde de Xinguara, para que eu pudesse receber o remédio no assentamento, e pediram para que eu não me esquecesse de toma-lo, conforme as indicações da receita anterior. “Você entendeu o que está escrito?”, perguntou o menino. Eu disse que sim e a menina pediu para eu explicar como se tomava o remédio. Eu disse o que me lembrava de quando eu ainda tinha o remédio e eles me explicaram novamente, lendo a receita, com muita atenção. Repetiram as palavras de preocupação quanto a minha saúde e se despediram pedindo para tiraram uma foto comigo. Fiquei feliz de ter a atenção dessa gente que veio de tão longe para conversar e se preocupar comigo. Eternizei o momento na foto e vou levar esse dia para sempre.

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